A menopausa ainda é, para muitas mulheres, um território de silenciamento. O corpo que sangrava regularmente agora cala. Mas esse silêncio é apenas fisiológico? Ou é também social, simbólico?
Na lógica dominante, o valor da mulher está frequentemente associado à juventude, à fertilidade, ao desempenho — sexual, materno, estético. Quando o corpo sai desse roteiro, o desconforto emerge. E, com ele, muitas vezes, a vergonha. Como se envelhecer fosse uma falha.
Mas o que a psicanálise tem a dizer sobre isso?
Freud, em seu texto Luto e Melancolia, nos lembra que há perdas que precisam ser elaboradas para não se tornarem adoecedoras. A menopausa, para além do que representa biologicamente, é também um convite à travessia de um luto simbólico — não apenas pelo fim do ciclo menstrual, mas por tudo o que ele representava: juventude, possibilidade de maternidade, um certo tipo de olhar social.
Só que, diferentemente do discurso que sugere que esse é o “fim da linha”, a análise pode revelar algo mais: o desejo não se aposenta. Ele muda de lugar, de forma, de ritmo. E pode, inclusive, se tornar mais autêntico — quando deixa de servir a ideais alheios e começa a servir à própria verdade psíquica da mulher.
E se a menopausa não fosse o fim da feminilidade, mas o início de uma versão menos domesticada dela?