Por Andrea Alvares | Psicanalista
Ao longo da vida, perdemos muito mais do que imaginamos. Pessoas queridas, vínculos, lugares, ideias, fases, versões de nós mesmos. Nem toda morte se inscreve num atestado; muitas se dão em silêncio, no cotidiano, nos desvios de caminho que não têm volta. Viver é também morrer um pouco — repetidamente, simbolicamente.
No texto “Luto e Melancolia” (1917), Freud descreve o luto como um processo psíquico saudável e necessário. Diante da perda, a dor precisa ser atravessada para que a vida possa seguir. Há um trabalho a ser feito.
Quando esse processo é barrado ou interrompido, pode surgir a melancolia — um enlutamento que se volta contra o próprio eu. A dor que antes era por algo que se foi, agora se transforma em desvalorização interna, culpa, vazio profundo. Na melancolia, o sujeito não apenas perde o objeto, mas sente-se como se ele próprio estivesse perdido.
A psiquiatria nomeia esse processo de Depressão.
A psicanálise oferece um espaço onde essas mortes podem ser simbolizadas. Onde o luto pode ser vivido em sua inteireza, sem atalhos. Onde o que foi perdido pode ser lembrado, elaborado, chorado — e, a seu tempo, transformado.
Nem tudo que dói é doença. Muitas vezes, é história.
E onde há história, ainda há vida que pulsa, mesmo entre as ruínas.